Até o dia chegar onde humanos podem controlar as máquinas com suas mentes (ou vice versa), sempre vamos precisar de algum tipo de menu, painel de controle ou algum jeito de interagir com nossas máquinas. E estes controles devem ser claros, simples e de fácil uso. Mas nem sempre é o caso: as vezes a interface pode ser uma droga e gerar resultados incômodos. Mas em vez de fazer a impressora engolir e triturar papel em vez de imprimir, algumas interfaces mal desenhadas podem criar verdadeiros desastres. Vamos a alguns exemplos.

1. USS Vincennes derruba avião por causa de um mal cursor

© jurand - Fotolia.com

Perto do final da guerra Irã – Iraque em 1988, os Estados Unidos e Irã estavam tendo uma pequena guerra não-declarada entre si, possivelmente apenas para deixar o Iraque com ciúmes. O evento mais trágico desta batalha aconteceu quando o navio de guerra americano USS Vincennes estava no meio de um confronto com uma canhoneira iraniana no Golfo Persa e sem querer atirou contra um avião civil depois de confundí-lo com uma aeronave em modo de ataque.

Se você está se perguntando por que o radar deles não tinha um sistema para separar aviões amigos de inimigos, bom…

A burrada

Na verdade, estava equipado com aquilo sim – o problema é que era uma droga.

Você já jogou um jogo de estratégia no computador? Tipo StarCraft ou Red Alert? Nesses jogos, você possui um ícone de pequeno tanque ou robô na sua tela e você precisa clicar com o mouse para selecioná-lo. A partir dali, você pode controlar sua unidade ou saber mais sobre ela (quanto de vida ainda possui, etc).

Infelizmente, o sistema da marinha americana não era tão sofisticado assim.

A tela mostrava ao operador quais objetos eram detectados pelo radar, e se ele clicasse no objeto o sistema iria seguir o dito cujo. Mas se o operador quisesse saber mais informações sobre o objeto afim de descobrir o que este objeto realmente era, ele tinha que mover um cursor diferente e clicar no objeto novamente.

É um método desajeitado e desintuitivo (não-intuitivo?), e era muito fácil esquecer o que eles estavam selecionado em um determinado momento – o operador podia estar seguindo um objeto mas mostrando as informações de um outro simplesmente por que ele esqueceu de mover o outro cursor. É o tipo de interface que não iria sair da fase de testes de qualquer jogo gratuíto via navegador e foi o que custou a vida de todos aqueles passageiros a bordo.

O operador do USS Vincennes achou que ele estava escutando um avião inimigo se aproximando (o Airbus cheio de pessoas inocentes) por que este era o objeto que ele tinha selecionado para seguir, no entanto o objeto do qual ele estava recebendo informações era de um F-14 hostil a várias milhas de distância, pois o cursor de informações estava nele.

Problema na interface

Tudo bem que a transmissão sozinha não seria motivo o suficiente para atirar contra o avião: eles também teriam que pensar que o objeto estaria voando como uma aeronave inimiga. Infelizmente, o sistema porco conseguia cometer esse erro também. Em vez de informar aos operadores do Vincennes se o avião se aproximando estava subindo ou descendo, o sistema apenas mostrava a altitude atual num monitor menor. O operador tinha que escrever a altitude (ou memorizá-la), esperar alguns segundos e depois verificar novamente para comparar os dois resultados para saber se o avião estava subindo ou descendo.

Por causa disto, um erro no cálculo levou ao operador informar que o Airbus estava descendo em direção ao navio, como uma aeronave de combate faria, quando possivelmente o avião estava apenas tentando sair de lá o quanto antes.

2. Three Mile Island aconteceu por causa de uma luz no console

© Thorsten Schier - Fotolia.com

Three Mile Island é a localização de uma central nuclear nos Estados Unidos que em 1979 sofreu uma fusão parcial, havendo vazamento de radioatividade para a atmosfera.

O acidente aconteceu quando o líquido refrigerante do reator nuclear escapou por que uma válvula estava presa na posição aberta. Por que eles não fecharam a válvua manualmente? Bom…

A burrada

Tudo isto aconteceu por causa de uma maldita luz. O painel de controle na usina de Three Mile Island tinha uma luz mostrando o estado da válvula de alívio que previne o reator de superaquecer. Luz ligada, válvula aberta; luz desligada, válvula fechada. Não é diferente de qualquer aparelho eletrônico que tem uma luz indicando se ele está ligado ou não, a única diferença sendo que estes aparelhos não correm o risco de deixar uma cidade inteira inóspita por toda a eternidade.

Você acharia que na usina nuclear não seria muito diferente – basta existir um sensor que detecta quando a válvula está fechada, e quando não está, uma luz liga. Simples!

Ou não.

Um fato que não era conhecido pelos funcionários é que, seja lá quem criou o painel de controle, programou para que a luz ligasse assim que o computador enviasse o sinal para fechar a válvula – algo que é completamente diferente de quando a válvula é de fato fechada.

É uma diferença gigantesca, ainda mais quando o objetivo de um painel de controle é de te avisar quando algo deu errado. Então se, por exemplo, uma válvula ficasse presa na posição aberta, não adianta muito se o console dar de ombros e dizer “Meh, falei pra válvula fechar. Não me culpe”. No final, os funcionários não notaram que a válvula tinha emperrado antes de fechar e a mesma ficou aberta por um período perigosamente longo, resultando num superaquecimento e produção excessiva de gases radioativos xenon-135 e krypton-85.

Embora não houvesse nenhuma morte, milhares de pessoas foram evacuadas da região e um pânico nacional foi criado pela mídia. Tudo por causa de uma interface mal planejada.

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