Enquanto Copacabana prepara seus fogos de artifício e o mundo se prepara para receber mais um ano, aqui me encontro com ansiedade crônica tentando definir minha resolução de final de ano. Quem mesmo que inventou essa @($#*@#$@#$ˆˆ&$??!!!!!!!!!!

Nunca gostei de tomar essas decisões do dia 31 de dezembro. Todo mundo promete, já meio embriagado, que vai parar de beber, emagrecer 10kg, ficar rico e arranjar marido. E todos mudam de opinião em março quando percebem que a porca torceu o rabo no Carnaval e tudo foi às favas. Acabam colocando a culpa nas circunstâncias, nos parentes e na economia que foi pro buraco. Afinal, é sempre mais fácil colocar a culpa no álcool do que admitir um “hash-tag-fail”.
Desconfio que meu desgosto com resoluções de final de ano vem de alguma irregularidade na minha personalidade. É uma certa mistura de insegurança pessoal com uma uma obsessão de terminar tudo que eu comecei. Há uns anos atrás, eu fiz um internet-diagnóstico e me auto-classifiquei como bipolar. É a única coisa que consegue explicar essas inquietudes que ocorrem na minha mente neste momento de definir minha resolução de ano novo. Sofro uma espécie de esquizofrenia temporária e juro que um alienígena se apossou das minhas faculdades mentais. Só mulheres com TPM crônica tem uma vaga noção ao que estou me referindo.
Quando constatei via web esta minha “condição”, resolvi tomar providências. O melhor que consegui foi negar o problema e inventar resoluções de final de ano que aliviassem meu estado de espírito. Descobri que o segredo é escolher bem as palavras, saber compor a frase certa. Por exemplo, por anos usei a seguinte resolução: “Perfeição só no ano que vem”. Ao longo do ano, conforme percebia minhas falhas, eu lembrava que havia prometido só atingir a perfeição no próximo ano e assim por diante. Foi ótimo, me serviu por vários anos. Nos últimos anos tenho usado a seguinte: “Resolvo não pensar muito” Essa foi excelente. Me livrou da culpa de muitos erros que cometi durante o ano. Afinal, não fiz nada muito bem pensado.
Mas este ano resolvi virar gente grande e encarar o problema de frente. Decidi escrever no papel uma resolução de final de ano que acrescentaria valor ao meu mundo e ao universo do design. Algo que me dignificasse como ser humano e como profissional. Nada na linha do “Vou lutar pela paz mundial”, porque não sou Miss Universo e sei que como designer vai ser difícil destituir um ditador com um pôster. Mas acredito no design e na força que ele tem. Acredito que ele pode mudar comportamentos, comunicar ideologias, exprimir opiniões e elevar os espíritos.
Por isso me encontro aqui com papel na mesa, caneta em uma mão e roendo as unhas da outra. Quero escrever uma resolução a favor e por amor ao design. Algo pelos meus colegas que sofrem comigo as alegrias e mazelas desta profissão. Quero resgatar a nossa dignidade. Acabar com essa história que nosso mercado é prostituído. Arrancar da mente da sociedade a ideia de que somos apenas mais uma peça na linha de produção, mais um personagem do filme de Charles Chaplin, um mal necessário nesses tempos modernos.
Ano que vem, eu vou falar para aquele cliente que não sou escrava e que eu não passei a faculdade desenhando. Não vou me sujeitar às humilhações do atendimento. Não vou aceitar mudanças na minha arte só porque o cliente não gostou da cor ou porque o chefe mandou. Vou erguer a cabeça e, com todo respeito, argumentar que meu conhecimento técnico-artístico é inigualável e muito superior ao dono da padaria que quer me contratar. Vou falar que só porque o sobrinho dele tem Photoshop não faz dele um designer. E que comprar um iMac não substitui os anos de estudo que enfrentei, as horas e humilhações do estágio não remunerado ao qual me sujeitei e o total de experiência que acumulei durante todos estes anos no mercado.
Não vou aceitar um job por migalhas. Não vou aceitar trocas de favores, como se vivêssemos na Idade Média. Não, eu não troco meu design por um porco ou um saquinho de especiarias. Não vendo design-fiado. Eu também gostaria de pagar minhas contas com beijos e abraços e e-mails de agradecimento do tipo “se você precisar de qualquer coisa…” mas isso não é viável. Quero ver você tentar convencer a Companhia Paulista de Força e Luz a trocar a conta de luz pelo logotipo deles no seu website.
Pausa. Respiro. Penso.
Percebo que talvez seja meu momento bipolar da noite. Lembro das palavras da minha professora que dizia que o cliente não deve ser visto como problema, mas como solução. Afinal, sem ele minha profissão não existiria. É ele que me permite sustentar minha casa, minha família. É ele que ajuda a pagar a escola, a viagem que eu sempre quis fazer, as parcelas do iPhone 4 e a saideira com os amigos.
Então penso na melhor decisão que posso tomar pela minha dignidade como ser humano e como designer. Rasgo o papel, respiro fundo e começo uma nova lista.
Neste ano novo eu quero:
- Ser a melhor designer que eu posso ser. Lutar pela excelência da minha profissão, mesmo em um mercado medíocre.
- Ser íntegro. Meu caráter é a última definição de quem eu sou. Não vou vendê-lo por migalhas, nem por milhões. Caso contrário, o que me define será perdido para sempre.
- Ser um eterno aprendiz. Mesmo quando eu sou mestre, tenho coisas a aprender com meus alunos. Eu SEMPRE posso aprender alguma coisa com alguém, seja ele o presidente do país ou o entregador do gás. Aprenda com os mais experientes. Ensine os inexperientes. Isso serve para o resto da vida e para todos os aspectos dela.
- Saber mostrar com dignidade o valor do meu trabalho. Todo homem tem o direito de receber pelo trabalho feito. Não deixar que o mercado abuse da minha boa vontade nem tire proveito da minha necessidade. Mas ter humildade suficiente para, surgindo o momento da necessidade, aceitar trabalhar por menos. Sempre lembrar que o valor do meu trabalho não define o meu valor como ser humano.
- Falhar é tão importante quanto o sucesso. Saiba cair com graça. E mais importante, aprenda a levantar com dignidade. Tenho a impressão de que as pessoas mais bem sucedidas nem sempre são as mais talentosas, mas as que não desistiram nunca.
- Ouvir antes de falar. Falar somente se for necessário. Saber argumentar com paciência. Às vezes o cliente tem razão ou o chefe tem uma boa ideia. Ouça-o. Pode ser uma pequena luz que se transforme numa grande ideia na sua mão. Às vezes a ideia dele é uma porcaria. Aprenda a explicar isso de uma forma que mostre seu conhecimento mas que não o humilhe.
- Colocar pessoas à frente de coisas. Se o job ainda não foi pra gráfica, paciência. Ninguém vai morrer por isso. Mas se eu perder a festa de 91 anos da minha avó eu posso me arrepender mais tarde.
- Eu tenho o direito de ter raiva do mercado, do cliente, do chefe, do meu computador, da economia, do fornecedor, etc. Mas eu não tenho o direito de ser cruel. Cabe a mim trazer um tipo de humor para o meu dia-a-dia e para as pessoas que me cercam. É minha escolha ser instrumento do bem ou a razão do estresse dos outros.
- Não fazer design por dinheiro, mas por paixão. Love is all we need.
- Parar de beber, emagrecer 10kg, ficar rica e arranjar marido.
É fim do mundo. Que venha 2012!
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