Eu adoro o design de Natal, mesmo não sendo nada tropical. Até porque, vamos combinar, brasileiro ainda não aprendeu a fazer decoração natalina. Será que não há mesmo como evitar que, no país do Carnaval, o Natal também vire um?

É mais do que óbvio que o design da época de Natal não seja nada tropical. As referências simbólicas (cores, texturas, etc.) vem de lugares muito distantes do nosso universo tupiniquim: renas, neve, casacos de pele, pinheiros, botas, gorros vermelhos de pelúcia, azevinho, trenós e gelo no telhado das casas; não esquecendo que o Papai Noel desce pela lareira. Pelo jeito ele só visita o sul do Brasil, e olhe lá. Afinal, o mais parecido com “White Christmas” que temos por aqui é o interior de um congelador que não é frost-free.

Mesmo sabendo de tudo isso, confesso que eu amo decorar a casa para o Natal. Sinto como se estivesse em algum vilarejo nórdico, pitoresco e mágico onde os pinheiros cantam e elfos costuram meu vestido com fios de ouro.

Coloco meu gorro vermelho de Mamãe Noel enquanto ouço uma musiquinha natalina brega de coral gringo. Tiro lá do fundo do armário a minha caixa de enfeites, que abro emocionada ao som de muitas reações alérgicas. A rinite é minha fiel companheira enquanto tiro o pó da minha árvore de Natal falsérrima e tento entoar já meio fanha: “penherinduus qui ãlegrinhã… trã lã lã lã lã dã dã dã dããã…”.

Como todo bom brasileiro que tem o orçamento e o apartamento apertado, há uns anos atrás decidi investir numa árvore que coubesse tanto no bolso quanto na minha mini-sala. Acabei adquirindo uma “Made in USA via China” que parece feita para a casa da Barbie. Ela tem meio metro de altura, é feita de um material plástico de qualidade “X” de xinfrim, de uma tonalidade meio “verde-musgo-limão-radioativo-acidente-na-fábrica-de-enriquecimento-de-urânio”. Acho que eu iria ouvir “Kriptonitaaa!” se Clark Kent visse minha árvore de Natal. Mas também, paguei 14 Reais nela, então estou satisfeita. Todo mundo sabe que aqui no Brasil é quase impossível achar o tal do “bom, bonito e barato”. No máximo, um “brega e barato” ou um “bonito e caro”.

Este ano coloquei luzinhas contornando a porta/janela da minha sacada. Estava achando tudo muito lindo até perceber que o vizinho do andar de baixo teve a mesma ideia. A diferença era que as dele não tinham nenhum padrão ou formato definido, eram  uma espécie de rave de luzinhas coloridas, piscando aleatoriamente e estragando minha noite. Seria só uma questão de gosto ou será que brasileiro tem uma espécie de daltonismo que nao enxerga brega?

Não me entendam mal. Não sou a defensora inveterada do design minimalista. Quem me conheçe sabe que meu design tem muito pouco de suíço. Concordo com a idéia defendida por Carson de “não confundir comunicação com legibilidade”. A idéia de que uma peça gráfica é repleta de elementos visuais não quer dizer que ela esteja isenta de objetividade.

O visualmente carregado também tem seu propósito. O Carnaval que o diga. Certos aspectos da produção artística carnavalesca é de tirar o chapéu branco e dar uns passinhos de samba. Os brasileiros são mestres na utilização desses signos visuais, herdados das influências étnicas africanas e indígenas. Tome, por exemplo, qualquer festa ou dança folclórica brasileiras como Boi Bumbá, Maracatu, Frevo, Dia de Reis, etc.

O dilema aqui é que estamos tentando importar uma festividade de características visuais etéreas, serenas e mágicas, de montanhas cobertas de neve, gizos e coro de anjos, para um Brasil de festas folclóricas carregadas de elementos visuais coloridos e ritmos alucinantes. O problema maior nem é a utilização de cores e ritmos, ou extravagância versus minimalismo, mas a falta de equilíbrio e senso estético na combinação desses elementos. E é exatamente aí que mora o perigo. Basta um passo em falso para cair no brega.

Eu, particularmente, sou partidária da paz e serenidade natalina, mas brasileiro é festeiro e gosta de uma luzinha pisca-piscante em ritmo de escola de samba na Sapucaí. Até aí tudo bem. Afinal, cada um tem suas preferências particulares.  Difícil mesmo é encontrar quem consiga decorar a fachada ou interior da casa com um mínimo de equilíbrio estético. Vamos ser sinceros. Alguns lugares parecem mais Casa dos Espíritos do que pra Fábrica do Papai Noel. Os únicos brinquedos que vem à mente é o Chuck e sua noiva.

 

Talvez o maior problema da nossa percepção estética é a constatação de um Brasil com pouca exposição às artes e falta de uma educação visual um pouco mais avançada. A humanidade caminha cada vez mais para uma comunicação voltada para imagem e não somos um país com domínio na manipulação dessa linguagem. Acredito que Donis A. Dondis tem razão quando afirma que a expressão visual é produto de uma inteligência humana de enorme complexidade, da qual temos, infelizmente, uma compreensão muito rudimentar. Fico me perguntando a que altura do campeonato o aprendizado visual será tão imprescindível quanto as outras ciências. Ou ainda, será que já não chegamos lá? O design natalino brasileiro talvez seja um bom indicador.

Eu tive a sorte de aprender noções de estética, simetria, combinação de cores de maneira bem informal dentro de casa, e depois de maneira formal no decorrer do meu processo de formação como profissional. Suspeito que em algum lugar dessa minha formação artística e estética (por mais pobre que seja) econtra-se a razão da diferença entre a minha sacada e a do meu vizinho.

Acredito que deva existir um jeito de fazer um Natal mais com a cara do Brasil. Não sei se pendurar luzinhas no coqueiro é o melhor caminho. Se alguém conseguir achar o ponto de equilíbrio visual entre as referências nórdicas e nossa cultura carnavalesca me diga como, porque eu quero aprender. Enquanto isso me refugiarei em meu mundo mágico de estrelas-guias, renas que voam e pinheiros que cantam. Não sei se é a solução correta ou a mais digna. A única coisa que eu sei com certeza é que tem certas breguices que nem Papai Noel aguenta.

 

// A dica de hoje fica pro livro “Sintaxe da Linguagem Visual” de Donis A. Dondis. E para os curiosos, aí vai a vista parcial e “instagramada” da minha super árvore de natal

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  • http://twitter.com/agah_design Hugo Oliveira

    Olá Cristy! Muito bom o seu artigo, gostei muito! Fica realmente a reflexão quanto à linguagem visual. Grande parte da população brasileira não entendem os signos, os elementos da comunicação visual. Isso também tem a haver com o sistema de educação, mas aí já é outra história ou melhor: outro problema…

    Por esse não entendimento, creio que essa breguice toda se manifesta, mas quanto à algumas composições visuais folclóricas sabemos como ninguém, é verdade. Talvez porque isso já faz parte da nossa cultura, está na raiz (Maracatu, Bumba meu Boi…) ao contrário da tradição importada.Achei engraçado você falar do coqueiro, pois a minha avó havia jogado a nossa árvore de Natal fora após os festejos do ano passado. Chegando o período de festas em 2011, ela quis enfeitar o coqueiro pequeno que temos. Trouxemos para dentro de casa e o enfeitamos. Minha avó adorou, eu não sou tão chegado assim a Natal, mas no fundo até gostei de ver o coqueiro enfeitado.Não sei também qual Natal é a cara do Brasil, quem sabe algum dia descobriremos…

    • Cristy

      Obrigada Hugo!
      É verdade.. entender de semiótica é fundamental para uma boa comunicação visual. 
      Agora fiquei morrendo de curiosidade de ver esse coqueiro!! : ) 
      Obrigada por compartilhar!
      abraços!

      • http://twitter.com/agah_design Hugo Oliveira

        Comecei a te seguir no Twitter, vou tirar uma foto do coqueiro de Natal e te mostro. Abraço

        • Cristy

          êba! :)

  • Math

    Olá Cristy.
    Eu tenho um pouco de receio em falar de natal, por que não é uma data que me agrade muito, mas vamos lá. Longe de mim querer ser ufanista, ou algo assim, mas decoração natalina no Brasil, em pleno verão, é pedir pra ser brega, é o mesmo que sair de casacão de pelo de chinchila pra ir na praia tomar um sol e correr no calçadão, a coisa já começa por aí, acho que é preciso uma adaptação na decoração, pra trazer as coisas um pouco mais pra nossa realidade, afinal, o natal não são apenas luzes coloridas e pinheiros.

    • Cristy

      verdade. é difícil trazer o pólo-norte pra praia.. :)

  • http://www.facebook.com/people/Mauro-Junior/100000129125402 Mauro Junior

    Adoro seus artigos e no minimo o máximo, em relação ao natal eu concordo ao mesmo tempo discordo, acho que natal uma data bacana que nos traz algo diferente do que vivemos todos os dias do ano (inclusive decoração), mas ao mesmo tempo uma data em que a única coisa que importa e o comercio.

    • Cristy

      em primeiro lugar obrigada por comentar! Em segundo lugar, concordo com vc! Acho esta época super bacana, inclusive a decoração (quando bem feita.. rsrss) mas o que estraga mesmo é o apelo comercial intenso! 

  • Manoel

    kkkkkkkkkkkkkkkkkk

  • Manoel

    nossa velho o blog ta bombando!!!

  • Manoel

    nossa velho se mudei de sao paulo pro rio de janeiro!!Prefiro sao paulo!!

    • MANOEL

      KKKKKKK

  • MANOEL

    nossa velho meu way five qubrou “-”

  • Smazarelli

    concordo, seu texto traduz a triste realidade.infelizmente ainda não podemos pensar em linguagem visual num país onde mais da metade da população não sabe escrever. os sinais básicos da linguagem – e os de trânsito – parecem existir por mera abstração de alguém ininteligível para a mente do brasileiro.

    • Cristy

      verdade. triste MESMO!