Estamos fadados a repetir nossa História do Design?
No universo do design também reina a lei “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Mas dizemos isso com um tom de fatalidade. A capacidade de criar algo totalmente novo existe ou estamos condenados a repetir nossa história?
Recentemente tenho embarcado numa jornada para conhecer melhor a História do Design Gráfico. Devo confessar que isso tem me deixado empolgada e um tanto quanto frustrada. Empolgada com uma história tão bonita e significativa. Frustrada porque tenho a impressão de que tudo o que vejo hoje no design gráfico é uma recriação de algo já feito no passado. Será que ainda existem idéias novas ou todos nós designers estamos fadados a repetir nossa história?
Assistindo ao documentário “Art & Copy” ouvi a seguinte frase que me deixou intrigada: “a coisa mais difícil e assustadora em ser o que os outros chamam de ‘pessoa criativa’ é que você não tem absolutamente ideia alguma de onde vem seus pensamentos e especialmente de onde eles virão amanhã.”
Criatividade é um elemento fundamental do trabalho do designer. Se você não a tem, estará fadado à cópia. Vira-se a foto, muda-se a cor, troca-se a fonte. Nasce um design pobre, beirando a ilegalidade. A falta de inspiração assusta a maioria neste ramo.
Mas onde está o limite entre inspirar-se em algo e copiar algo? No mês passado, estive no MoMA em Nova York com a minha irmã. Aquele tempo que passamos juntas foi algo inspirador para ambas. Ela saiu com a mente intrigada, espírito acalentado, tendo discussões particulares sobre a vida e o universo. Só essa experiência já é bastante para agregar conteúdo a qualquer mente criativa. Eu saí também com tudo isso e mais um monte de ideias práticas para aplicar em meus próximos projetos gráficos.
No universo do design também reina a lei do “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Mas dizemos isso com um tom de fatalidade. Critica-se o logo das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro dizendo que foi uma cópia da obra “A Dança” de Matisse. Não sei dizer se os designers por trás da logomarca tiveram essa intenção. Eu particularmente achei a ligação interessante. Além do desenho formar o morro do Pão de Açúcar, os dançarinos expressam o espírito alegre e festeiro do nosso povo e representam a característca olímpica de unir os povos em um local e atividade comum a todos.
O projeto gráfico do MIT Media Lab foi aceito com muitos louvores. Realmente é um projeto incrível e inovador. Honestamente, a primeira coisa que me veio à mente foi a capa feita por Rudolph De Harak nos anos 50 para o livro “Units, Dimensions and Dimensionless Numbers” de D. C. Ipsen. A conexão provavelmente não foi intencional, mas mesmo que tivesse sido, não vejo problema. Até porque percebe-se, obviamente, que são dois projetos diferentes.
Criticamos aqueles que escondem o fato de terem se inspirado em outros para criar algo próprio. Contudo, não temos problema quando a inspiração é explicitada. Eu devo aceitar a idéia desde que o autor seja honesto? O público tende a mostrar que sim. Rapidamente penso no exemplo da arte da capa do álbum “Celebration” da Madonna. É uma inspiração óbvia nos quadros de Andy Warhol sobre Marilyn Monroe. E o artista não nega: a “cópia” foi intencional. A grande maioria do público gostou, aprovou e celebrou a arte proposta.
A constatação de que no universo é impossível criar-se algo a partir do nada é, no mínimo, um incômodo. Para nós designers, é até meio indigesta. É por causa dela que não acredito que existam ideias natas. Nascemos sim com a capacidade de pensar. Isto em si já é o princípio da criação. Entretanto pensamos a partir de ideias que aprendemos durante nossa vida. Pergunto-me, então, se estamos em busca de algum ideal, de algum valor perdido no passado ou se, no fundo, o que todos nós queremos mesmo é inspiração pura e simples. Nós a desejamos tanto, porque sem ela, a nossa capacidade de criar inexiste.
Comparo os processos de inspiração e criação à fotossíntese. A planta absorve o CO2 e elimina o oxigênio. Nós, seres humanos, absorvemos este oxigênio e devolvemos o CO2 à atmosfera. Da mesma forma, inspiramos aquilo que está ao nosso redor e expiramos nossa ideia, que é uma nova criação. Uma ideia que passa por mim e sai exatamente igual é uma cópia. É como se eu tivesse inspirado CO2 e eliminado também CO2. No momento em que a ideia de fora entra em contato com minha mente, ela é influenciada pelos meus pensamentos. Acontecendo isso, ela se recria e eu, então, devolvo ao meu ambiente um novo conceito. Essa nova manifestação será absorvida também por outros que, por sua vez, produzirão suas próprias ideias, num processo contínuo de recriação.
Enquanto a criação ocorre de dentro para fora, a inspiração acontece de fora para dentro. Ela necessariamente vem de algum lugar fora de nós mesmos. Somos influenciados por tudo que temos contato. Nossa família, nosso ambiente, nossa cultura. Somos influenciados por outras pessoas. O que elas dizem, pensam, vestem, e a forma que se comportam. Tudo que eu vivo no meu ambiente é conteúdo para meu design. Memórias nada mais são do que a tentativa de recriar na minha mente, no presente, exatamente o que ela absorveu no passado.
Quanto mais leio sobre a História do Design Gráfico, percebo que toda peça é uma manifestação recriada a partir de uma ideia anterior a ela. É por isso que tenho a impressão de “já ter visto aquele design em algum lugar”. (Se isso não acontece com você, cuidado, porque seu conhecimento em design pode estar muito fraco). Não gostamos de admitir isso. Negamos nossas inpirações particulares. Queremos que nossa ideia seja completamente original. Entretanto, não acredito que isso exista. Nós recriamos a partir de tudo que conhecemos e experimentamos no decorrer da nossa existência. A minha criação é, no fundo, uma junção dos pedaços de muitas outras, reorganizada de uma forma singular e confeccionada com tempo e carinho a partir de tudo que me é oferecido pelo universo e a minha história. Não há fatalidade nisso.
Fica aí algumas dicas de filmes que vale a pena dar uma conferida: “De onde vem as boas idéias” e “Exit Through The Gift Shop“.
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Designer por profissão, Freela por escolha, Marketeira por necessidade e Artista por ilusão. Moro em Campinas, SP com o "Jobs" meu cão imaginário (por questões alérgicas e não psicológicas) que usa óculos e camiseta preta e que nunca envelhece. Tento pensar/escrever sobre Design porque minha contribuição gráfica é, no máximo (e por falta de permissividade de termos piores) tragável : )
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