Charles S. Anderson é um criativo visual e fundador da CSA Design, uma das mais influentes e respeitadas empresas de design do mundo. Com um olho sempre atento à cultura popular, o trabalho de Anderson é um reflexo da evolução e das tendências clássicas. Nessa conversa, Charles conta um pouco sobre seu início de carreira e quem inspirou ele.

Sobre inspiração e design
Parte da irreverência da CSA Images é pelo fato de eu ter crescido na zona rural de Iowa, o que me deixou muitas histórias sobre esquilos raivosos, cemitérios abandonados e armazéns de milho vigiados por ratazanas selvagens. Mais tarde, como chefe de um estúdio de design, as histórias se ampliaram com a inclusão de reuniões com clientes ao lado de um jumento no deserto de Sonora ou viagens de pesquisa ao sítio Skywalker, do George Lucas. Uma vez eu me diverti bastante enchendo o saco do meu melhor cliente, Jerry French, espalhando seu logotipo em centenas de desodorizadores de banheiro, que foram estrategicamente distribuídos em todos os mictórios durante uma conferência nacional de design. As histórias de que eu mais gosto geralmente envolvem clientes ou outros artistas e um pouco de bagunça, mas do tipo construtiva.

Qual foi o seu primeiro grande contrato?
No começo da minha carreira eu desenhei um livreto promovendo o Speckletone, um papel fabricado pela French Paper Company, uma das últimas fabricantes de papel familiar (a empresa foi fundada em 1847 e a administração já está na sexta geração). A tiragem de 10 mil exemplares foi distribuída pelos EUA e em seis meses o Speckletone passou de a pior linha de papéis para a mais vendida da companhia. Aí a French Paper passou a acreditar na força do design.

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Onde você busca inspiração?
A biblioteca da CSA Images é inspirada em toda a história do design, da propaganda e da ilustração, que é também a origem da minha inspiração. Capturamos a autenticidade e o detalhe da ilustração feita à mão, preservando digitalmente a originalidade e os efeitos da tinta sobre o papel. Começamos em 1970 e agora temos a maior e mais relevante coleção de ilustrações inspiradas em cultura pop do mundo, construída por talentosos artistas, ilustradores e designers do mercado. A empresa personifica toda a essência da cultura visual pop, inspirada pelo próprio pop e também pelo kitsch, moderno, clássico, futurista, engraçado e muito mais. A CSA é atemporal, icônica e moderna, tudo ao mesmo tempo, inspirada pela história e pela cultura do pop.

O que você faz diariamente para se manter inspirado?
Eu vou trabalhar em nosso escritório no Pop Ink Museum of Art for Commerce, em Minneapolis, um prédio de quatro andares feito de tijolinhos, concluído em 1854. O prédio contém dezenas de milhares de artefatos de papel e plástico da cultura pop, além de arte criada e compilada nos últimos 40 anos. É inspirador estar cercado dessas coisas. O prédio abriga a CSA Images e a Charles S. Anderson Design (CSA Design). No último andar, fica o estúdio de design da minha esposa, Laurie DeMartino, que está continuamente produzindo trabalhos lindos e inspiradores.

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Você está num táxi com três pessoas – com quem você quiser, seja vivo ou falecido. Quem seriam estas pessoas?
A resposta lógica seria Pai, Filho e Espírito Santo, o criador de tudo e fonte de toda a criatividade. Mas, a resposta falando em projetos é Steve Jobs, Paul Rand e Saul Bass, uma mistura interessante de visionários com quem tive a sorte de conversar. Seria mais interessante ainda participar de uma discussão com os três ao mesmo tempo.

Steve Jobs
Jobs era cinético — ele nunca parava de se mexer. Sua mente pulava de um assunto para outro com tanta rapidez quanto seus olhos vasculhavam a sala, enquanto fazia perguntas sobre as coisas que estava pesquisando, principalmente sobre nossas amostras de embalagens arrumadas numa prateleira da sala de reuniões, que a toda hora ele pegava para manusear. Mas, ficou totalmente concentrado quando viu o incrível manual de identidade corporativa da Next, que o Paul Rand tinha desenvolvido para ele. Jobs foi a pessoa mais intensa que eu já conheci. Quando ele saiu da sala, toda energia foi embora com ele, como se alguém tivesse apagado as luzes.

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Paul Rand
Paul Rand trabalhou com Steve Jobs quando desenhou o logo da Next. Tive a chance de ouvir essa história em primeira mão do Jobs. A verdade é que Rand fez várias versões do logo para a Next. Sua apresentação rejeitava todos esses logos, um de cada vez, explicando detalhadamente por que eles não serviam. Rand tinha construído esse caso tão bem que o logo final parecia não só lógico, mas inevitável, mesmo se você não gostasse do visual dele.

Eu conheci Paul Rand em 1989, em Tóquio, no Pan Pacific Design Conference, onde eu fiz a inauguração da exposição dos meus pôsteres na Ginza Gallery. Rand não tinha nenhum problema com o meu trabalho de design, no entanto, ele me disse em seu melhor ‘rosnado rabugento’, que ele não gostou do uso de estilos publicitários na arte, dizendo “esse é o tipo de coisa no qual ele lutou contra em toda a sua carreira!”. E, como eu não queria discutir com o mais conceituado designer norte-americano, eu disse a ele que não era a batalha da minha geração, e o que eu mais gostava sobre a arte icônica é o fato de que elas serem atemporais, populares e muitas vezes engraçadas, que mesmo pessoas que não têm conhecimento de Design podem se relacionar com ela. Ele acabou o papo abruptamente, dizendo-me: “da próxima vez que você estiver em Connecticut, me avise, que eu vou te comprar uma casquinha de sorvete, garoto!”.

Me conforta saber que algumas dessas mesmas imagens icônicas que Paul Rand tanto detestava há quase um quarto de século, ainda são tão impactantes como quando foram criadas!

Saul Bass
No início dos anos 1990, quando eu estava criando a minha primeira empresa de design, eu recebi um telefonema do lendário designer Saul Bass. Ele me convidou para vir para Los Angeles para discutir uma possível parceria. Eu disse a ele que eu estava extremamente lisonjeado, mas estava determinado ter o meu próprio negócio em Minneapolis. Ele foi muito gentil e gracioso. Poucos anos depois, ele faleceu e eu sempre me lamentava por não ter viajado para encontrá-lo pessoalmente. Anos mais tarde, Paula Scher (designer gráfico, ilustradora, pintora e professora de arte em design), me contou a história por completo: “Saul estava morrendo de câncer. Ele chamou a todos”, o que esvaziou imediatamente a minha noção de longa data que Saul Bass tinha me escolhido como sucessor.

Qual ícone de design ou arte que você gostaria de criado?
No aspecto de publicidade duradoura, cito o Mr. Bubble ou Count Chocula – estes ícones extrovertidos e clássicos têm o sentimento e a cultura pop americana. O logotipo da Turner Classic Movies (TCM) provavelmente também é o mais próximo que há na criação de uma marca duradoura.

A CSA Design está sediada em Minneapolis (EUA) e tem em sua lista de clientes Nike, Coca-Cola, Levi’s, Sony, Paramount Pictures, Nissan, The New York Times, entre outras empresas. Suas ilustrações também podem ser encontradas em alguns dos museus mais famosos do mundo.

Fonte: iStock by Getty Images (www.istockphoto.com.br)
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